QUEM SOU?

Minha foto
Goiania, Brazil
Um homem simplesmente aí, jogado no rio do devir a procura de si mesmo. Um campo de batalha... uma corda sobre o abismo, um ser no mundo corroido pela angustia da certerza da própria morte, mas que faz dessa consciencia da finitude um motivo para se responsabilizar mais por cada uma de suas escolhas.http://lattes.cnpq.br/9298867655795257

domingo, 24 de junho de 2018

domingo, 29 de abril de 2018

Educadores e educandos na era das incertezas e contingências - Desafios e alternativas



Wanderley Jr – Fe/UFG
Filosofia

Há um descompasso entre as inúmeras teorias e propostas de práticas e estratégias de ensino e aprendizagem, as leis e políticas educacionais para tentar manter o jovem na escola e  a realidade objetiva, o mundo da vida,  da economia,  cultura,  sociedade, o mundo do trabalho e a família imersos em uma realidade na qual a única permanência é a impermanência de todas as coias.
Em tal contexto pergunta-se se ainda é possível realizar  propostas educacionais com conteúdos válidos para toda vida e que visam o respeito, a reciprocidade, a colaboração diante de uma realidade que acirra a competição, reduzindo-nos à condição de meros consumidores?
Novos agenciamentos dos saberes diluem os limites entre as especializações consolidando uma visão holística, sistêmica  e complexa do conhecimento e da própria realidade. Veremos que tais mudanças repercutem em todas as dimensões da existência humana, na esfera da produção/trabalho, na criação simbólica(cultura) e nas relações de poder, colocando novas exigências, desafios e alternativas à escola da Educação básica que pretendemos analisar aqui tomando como referências básicas algumas reflexões do sociólogo Sygmund Baumann e a BNCC para Ensino Médio(3a versão recém – Mec).



[...] A modernidade “sólida” era verdadeiramente a era dos princípios duradouros e concernia, sobretudo, aos princípios duráveis que eram conduzidos e vigiados com grande atenção. Na fase “líquida” da modernidade, a demanda por funções de gestão convencionais se exaure rapidamente. A dominação pode ser obtida e garantida com um dispêndio de energia, tempo e dinheiro muito menor: com a ameaça do descompromisso, ou da recusa do compromisso, mais do que com um controle ou uma vigilância inoportunos. ... Agora, cabe aos subordinados comportar-se de modo a obter consensos perante os chefes e levá-los a “adquirir” seus serviços e seus produtos criados individualmente. “Seguir a rotina” não seria suficiente para alcançar esse objetivo. (Zygmunt Bauman Cadernos de Pesquisa, v. 39, n. 137, maio/ago. 2009)
Nenhuma reviravolta da história humana pôs os educadores diante de desafios comparáveis a esses decisivos de nossos dias. Simplesmente não havíamos estado até agora em situação semelhante. A arte de viver em um mundo ultrassaturado de informações ainda deve ser aprendida, assim como a arte ainda mais difícil de educar o ser humano neste novo modo de viver. (Zygmunt Bauman Cadernos de Pesquisa, v. 39, n. 137, maio/ago. 2009)
É importante observar ainda que na modernidade líquida as instituições de ensino e aprendizagem são  postas em dúvida. Ocorre, por exemplo,  a perda do monopólio das instituições escolares como tutoras e legitimadoras do conhecimento para ambientes virtuais de aprendizagem e software que mudam o espaço tempo dos processos de ensino-aprendizagem e a forma como o conhecimento é produzido, armazenado e distribuído. Observa-se nas pedagogias do aprender a aprender subjacentes à chamada sociedade de conhecimento um certo deslocamento de ênfase do “ensino” à “aprendizagem”. Deslocamento já verificado em propostas pedagógicas desde Comênio como a escola nova.
As teorias pedagógicas e políticas educacionais devem parar de fazer de seus conteúdos, estratégias de ensino mísseis balísticos que podem ser controlados e direcionados a alvos imóveis e conhecidos. A sociedade atual exige “um míssel inteligente, que possa modificar a sua direção em vôo com base na evolução dos eventos, que possa individualizar imediatamente os movimentos dos alvos, aprender tudo o que for necessário sobre a direção e a velocidade real do alvo e identificar, a partir das informações recolhidas, o ponto para o qual direcionar a sua trajetória.” (Zygmunt Bauman Cadernos de Pesquisa, v. 39, n. 137, maio/ago. 2009) . Abandona-se o pressuposto de que o objetivo seja estabelecido, fixo e irremovível. Exige-se uma aprendizagem no fazer, um aprender rápido bem como uma capacidade de esquecer o que já se aprendeu e tornou se obsoleto.
“Todas as informações obtidas “envelhecem” rapidamente e ao invés de fornecerem um guia confiável podem desviar do caminho se não forem prontamente ignoradas. Aquilo que os “cérebros” dos mísseis inteligentes não devem nunca esquecer é que o conhecimento adquirido é eminentemente eliminável, somente eficaz até uma nova ordem e útil apenas temporariamente, e que a demonstração do sucesso está em não deixar escapar o momento em que o conhecimento adquirido não é mais útil e deve ser eliminado, esquecido e substituído.” (Zygmunt Bauman Cadernos de Pesquisa, v. 39, n. 137, maio/ago. 2009)
Para Baumann, a filosofia da educação da era sólida moderna considerava os professores como lançadores dos mísseis balísticos e os instruíam sobre como se assegurar que seus produtos seguissem rigorosamente na rota preestabelecida, determinada desde o início pela quantidade de movimentos do lançamento. O advento dos tempos líquido-modernos faz com que o saber sólido-moderno perca seu valor pragmático fazendo com que currículos, conteúdos, políticas educacionais, professores e gestores desloquem sua atenção dos conteúdos e estratégias fixas, duráveis com objetivos/alvos predefinidos para a lógica da aprendizagem – o aprender fazendo numa trajetória e com objetivos que se constroem durante o caminho.
Baumann constata que atualmente o conhecimento precisa ser  renovado e as profissões precisam ser flexíveis para atender demandas de uma realidade na qual a única permanência é a impermanência de todas as coisas. Entretanto, Baumann ao reconhecer a necessidade da educação permanente critica ao mesmo tempo aqueles que reduzem o horizonte de uma aprendizagem permanente ao seu papel de “promoção de uma força de trabalho qualificada, formada e adaptável”.
Em  tempos de hegemonia do discurso neoliberal, que sustenta a chamada ditadura do pensamento único, a noção de aprendizagem autogestionada, o “aprender fazendo” sem mediação de um mestre se presta a um discurso que permite ou justifica a omissão do Estado na responsabilidade de fornecer a educação de qualidade, quando não é usada por professores mal preparados que pretendem conferir um pseudo protagonismo aos alunos.
É preciso que a educação, universidades, escolas e políticas educacionais devolvam o poder aos cidadãos sem a mediação de dispositivos (mídias, partidos, entidades de classe) que nos impedem de fazer escolhas e de agir eficazmente com autonomia e responsabilidade. Temos que construir e reconstruir vínculos interpessoais, a capacidade de empenhar-se continuamente junto com os outros por uma causa ou ideal maior que nossos próprios interesses que permita o desenvolvimento das potencialidades dos diversos sujeitos e o desfrute adequado das suas capacidades.
Com Baumann,  um dos mais importantes desafios da educação permanente  para a “outorga de poderes” está ligado à reconstrução do espaço público hoje cada vez mais desabitado, onde homens e mulheres possam empenhar-se em uma realização contínua dos interesses, dos direitos e dos deveres individuais e comunitários, privados e públicos. Em um país dilacerado pelas injustiças sociais, pela corrupção crônica que nos torna todos cúmplice de uma classe política que nunca pensa no bem comum, é importante exercitar nossa capacidade  de interação com os outros: o diálogo, a negociação, a gestão e a resolução dos conflitos na busca de consensos mínimos parece ser a única alternativa para uma sociedade cada vez mais  dividida.