QUEM SOU?

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Goiania, Brazil
Um homem simplesmente aí, jogado no rio do devir a procura de si mesmo. Um campo de batalha... uma corda sobre o abismo, um ser no mundo corroido pela angustia da certerza da própria morte, mas que faz dessa consciencia da finitude um motivo para se responsabilizar mais por cada uma de suas escolhas.http://lattes.cnpq.br/9298867655795257

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Carta aos senhores Reitores



Carta aos Reitores das Universidades Européias
Antonin Artaud
Seleção/Adaptação - Wanderley J. Ferreira Jr.


Senhores Reitores,
Na estreita cisterna que os Srs. chamam de “Pensamento”, os raios espirituais apodrecem como palha.
Chega de jogos da linguagem, de artifícios da sintaxe, de prestidigitações com fórmulas, agora é preciso encontrar a grande Lei do coração, a Lei que não seja uma lei, uma prisão, mas um guia para o Espírito perdido no seu próprio labirinto. Além daquilo que a ciência jamais conseguirá alcançar, lá onde os feixes da razão se partem contra as nuvens, existe esse labirinto, núcleo central para o qual convergem todas as forças do ser, as nervuras últimas do Espírito. Nesse dédalo de muralhas móveis e sempre removidas, fora de todas as formas conhecidas do pensamento, nosso Espírito se agita, espreitando seus movimentos mais secretos e espontâneos, aqueles com um caráter de revelação, essa ária vinda de longe, caída do céu.
Mas a raça dos profetas extinguiu-se. A Europa cristaliza-se, mumifica-se lentamente sob as ataduras das suas fronteiras, das suas fábricas, dos seus tribunais, das suas universidades. O Espírito congelado racha entre lâminas minerais que se estreitam ao seu redor. A culpa é dos vossos sistemas embolorados, vossa lógica de 2 mais 2 fazem 4; a culpa é vossa, Reitores presos no laço dos silogismos. Os Srs. fabricam engenheiros, magistrados, médicos aos quais escapam os verdadeiros mistérios do corpo, as leis cósmicas do ser, falsos sábios, cegos para o além-terra, filósofos com a pretensão de reconstituir o Espírito. O menor ato de criação espontânea e um mundo mais complexo e revelador que qualquer metafísica.
Deixem-nos pois, os Senhores nada mais são que usurpadores. Com que direito pretendem canalizar a inteligência, dar diplomas ao Espírito?
Os Senhores nada sabem do Espírito, ignoram suas ramificações mais ocultas e essenciais, essas pegadas fósseis tão próximas das nossas próprias origens, rastros que às vezes conseguimos reconstituir sobre as mais obscuras jazidas dos nossos cérebros.
Em nome da vossa própria lógica, voz dizemos: a vida fede, Senhores. Olhem para seus rostos, considerem seus produtos. Pelo crivo dos vossos diplomas passa uma juventude abatida, perdida. Os Senhores são a chaga do mundo e tanto melhor para o mundo, mas que ele se acredite um pouco menos à frente da humanidade.

Artaud, como Nietzsche, era um louco lúcido que fazia de si mesmo um campo de batalha, era um estrangeiro, um tubo de ensaio no qual a existência testou alguns de seus limites...

“Senhores doutores, prefiro respirar o ar que emana da terra fresca ou dormir sobre couros de bois do que sobre seus títulos e respeitabilidades”
Nietzsche.

domingo, 18 de fevereiro de 2018

Assim falou Zaratustra - Friedrich Nietzsche


Mas Zaratustra olhou, admirado, para o povo. Depois, falou
assim:
"O homem é uma corda estendida entre o animal e o superhomem
- uma corda sobre um abismo.
É o perigo de transpô-lo, o perigo de estar a caminho, o perigo
de olhar para trás, o perigo de tremer e parar.
O que há de grande, no homem, é ser ponte, e não meta: o
que pode amar-se, no homem, é ser uma transição e um ocaso.
Amo os que não sabem viver senão no ocaso, porque estão
a caminho do outro lado.
Amo os grandes desprezadores, porque são os grandes veneradores
e flechas do anseio pela outra margem.
Amo aqueles que, para o seu ocaso e sacrifício, não procuram,
primeiro, um motivo atrás das estrelas, mas se sacrificam à
terra, para que a terra, algum dia, se torne do super-homem.
Amo aquele que vive para adquirir o conhecimento e quer o
conhecimento para que, algum dia, o super-homem viva. E quer,
assim, o seu próprio ocaso.
Amo aquele que trabalha e faz inventos para construir a casa
do super-homem e preparar para ele a terra, os animais e as
plantas: porque, assim, quer o seu próprio ocaso.
Amo aquele que ama a sua própria virtude: porque a virtude
é vontade de ocaso e uma flecha do anseio.
Amo aquele que não guarda para si uma só gota de espírito,
mas quer ser totalmente o espírito da sua virtude: assim transpõe,
como espírito, a ponte.
Amo aquele que da sua virtude faz o seu próprio pendor e
destino: assim, por amor à sua virtude, quer ainda e não quer
mais viver.
Amo aquele que não deseja ter demasiadas virtudes. Uma só
virtude é mais virtude do que duas, porque é um nó mais forte
ao qual se agarra o destino.
Amo aquele que prodigaliza a sua alma, não quer que lhe
agradeçam e nada devolve: pois é sempre dadivoso e não quer
conservar-se.
Amo aquele que sente vergonha se o dado cai a seu favor e
que, então, pergunta: 'Sou, acaso, um trapaceiro?' - porque
quer perecer.
Amo aquele que atira palavras de ouro precedendo seus atos'
e, ainda assim, cumpre sempre mais do que promete: pois quer
o seu ocaso.
Amo aquele que justifica os seres futuros e redime os passados:
porque quer perecer dos presentes.
Amo aquele que pune o seu Deus, porque o ama: pois deverá
perecer da ira do seu Deus.
Amo aquele cuja alma é profunda também na mágoa e pode
perecer de uma pequena ocorrência pessoal: assim transpõe a
ponte de bom grado.
Amo aquele cuja alma é tão transbordante, que se esquece de
si mesmo e que todas as coisas estão nele: assim, todas as coisas
tornam-se o seu ocaso.
Amo aquele cujo espírito e coração são livres: assim, nele, a
cabeça é apenas uma víscera do coração, mas o coração o arrasta
para o ocaso.