QUEM SOU?

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Goiania, Brazil
Um homem simplesmente aí, jogado no rio do devir a procura de si mesmo. Um campo de batalha... uma corda sobre o abismo, um ser no mundo corroido pela angustia da certerza da própria morte, mas que faz dessa consciencia da finitude um motivo para se responsabilizar mais por cada uma de suas escolhas.http://lattes.cnpq.br/9298867655795257

domingo, 18 de fevereiro de 2018

Assim falou Zaratustra - Friedrich Nietzsche


Mas Zaratustra olhou, admirado, para o povo. Depois, falou
assim:
"O homem é uma corda estendida entre o animal e o superhomem
- uma corda sobre um abismo.
É o perigo de transpô-lo, o perigo de estar a caminho, o perigo
de olhar para trás, o perigo de tremer e parar.
O que há de grande, no homem, é ser ponte, e não meta: o
que pode amar-se, no homem, é ser uma transição e um ocaso.
Amo os que não sabem viver senão no ocaso, porque estão
a caminho do outro lado.
Amo os grandes desprezadores, porque são os grandes veneradores
e flechas do anseio pela outra margem.
Amo aqueles que, para o seu ocaso e sacrifício, não procuram,
primeiro, um motivo atrás das estrelas, mas se sacrificam à
terra, para que a terra, algum dia, se torne do super-homem.
Amo aquele que vive para adquirir o conhecimento e quer o
conhecimento para que, algum dia, o super-homem viva. E quer,
assim, o seu próprio ocaso.
Amo aquele que trabalha e faz inventos para construir a casa
do super-homem e preparar para ele a terra, os animais e as
plantas: porque, assim, quer o seu próprio ocaso.
Amo aquele que ama a sua própria virtude: porque a virtude
é vontade de ocaso e uma flecha do anseio.
Amo aquele que não guarda para si uma só gota de espírito,
mas quer ser totalmente o espírito da sua virtude: assim transpõe,
como espírito, a ponte.
Amo aquele que da sua virtude faz o seu próprio pendor e
destino: assim, por amor à sua virtude, quer ainda e não quer
mais viver.
Amo aquele que não deseja ter demasiadas virtudes. Uma só
virtude é mais virtude do que duas, porque é um nó mais forte
ao qual se agarra o destino.
Amo aquele que prodigaliza a sua alma, não quer que lhe
agradeçam e nada devolve: pois é sempre dadivoso e não quer
conservar-se.
Amo aquele que sente vergonha se o dado cai a seu favor e
que, então, pergunta: 'Sou, acaso, um trapaceiro?' - porque
quer perecer.
Amo aquele que atira palavras de ouro precedendo seus atos'
e, ainda assim, cumpre sempre mais do que promete: pois quer
o seu ocaso.
Amo aquele que justifica os seres futuros e redime os passados:
porque quer perecer dos presentes.
Amo aquele que pune o seu Deus, porque o ama: pois deverá
perecer da ira do seu Deus.
Amo aquele cuja alma é profunda também na mágoa e pode
perecer de uma pequena ocorrência pessoal: assim transpõe a
ponte de bom grado.
Amo aquele cuja alma é tão transbordante, que se esquece de
si mesmo e que todas as coisas estão nele: assim, todas as coisas
tornam-se o seu ocaso.
Amo aquele cujo espírito e coração são livres: assim, nele, a
cabeça é apenas uma víscera do coração, mas o coração o arrasta
para o ocaso.