QUEM SOU?

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Goiania, Brazil
Um homem simplesmente aí, jogado no rio do devir a procura de si mesmo. Um campo de batalha... uma corda sobre o abismo, um ser no mundo corroido pela angustia da certerza da própria morte, mas que faz dessa consciencia da finitude um motivo para se responsabilizar mais por cada uma de suas escolhas.http://lattes.cnpq.br/9298867655795257

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

PENSANDO CONTRA SI MESMO

Prof. Wanderley J. Ferreira Jr.


 

Vivemos sob uma forma nefasta de democracia representativa que se degrada numa oligarquia corporativista na qual os partidos e os três poderes representam a reunião de interesses, no mínimo duvidosos, que favorecem a corrupção, o cerceamento da liberdade e a troca de favores e privilégios entre os poderes e seus representantes sinistros. Na realidade nossa pseudo-democracia infringe de forma acintosa os princípios básicos de uma verdadeira democracia, tais como: a igualdade perante a lei [isonomia], a liberdade de expressão e o reconhecimento do outro cidadão como um igual e portador dos mesmos direitos e deveres.
Partidos políticos, gestores públicos, parlamentares, todos interessam apenas em descobrir mecanismos, artimanhas, brechas na lei, para que melhor possam aproveitar da coisa pública [Res-pública] e conservar o poder satisfazendo seus interesses privados e de grupos.

Essa estrutura político-partidária repercute na própria estrutura da sociedade civil – onde certos segmentos da classe média almejam desesperadamente ser próximos da anti-elite que detém o poder político e econômico. O mesmo acontece com segmentos das classes menos favorecidas – que almejam agora aproximarem-se da classe média, copiando mais seus vícios, como o consumismo, do que suas raras virtudes. O que presenciamos é uma luta frenética por ascensão social vista quase que exclusivamente como posse material de bens de consumo. Consumo, logo sou um cidadão. Assim, uma elite que nao é uma verdadeira elite, torna-se o objeto desejo da maioria menos favorecida. Existe sim uma inveja latente no discurso radical e raivoso de certos segmentos sociais quando atacam o que consideram elite. No fundo, para horror do velho Marx, a ideologia fez muito bem seu papel, os operários um dia almejam ser como seus patrões. O oprimido assume o discurso do opressor, a ponto de reproduzir o sistema de dominação do qual ele mesmo foi vítima. As elites brasileiras distingue-se claramente das elites Européias e Americana. Estas valorizam o trabalho, o mérito e o reconhecimento, nao basta vegetar à sombra dos poderosos. Será por acaso o fato da Rede Globo ter mais importancia para a formação da mentalidade média do brasileiro do que as universidades? Nesse ambiente de frivolidades e inquietação na busca do mais novo, da última moda, desenvolve-se a moral da indiferença.

A longa tradição escravocrata habitou nossas pseudo-elites a desprezar os excessos da classe média e dos mais pobres. Como já disse Euclides da Cunha [Os sertões]. Estamos num país onde tornou-se comum dizer – Você sabe com quem está falando? Estamos numa sociedade de pachecos empavesados, acácios triunfantes. Nunca se berrou tanta asneira debaixo do sol. É asfixiante.

O fato é que maioria dos políticos e gestores públicos desse país pratica uma baixa política como se política fosse troca de favores entre compadres. Consequência – ineficiência da máquina estatal infestada de redes de privilégios e clientelismo alicerçada na máxima – Nao me dê, coloque-me onde há. No Brasil é inegável uma certa cultura avessa a civitas. Nos misturamos e juntamos com que nos exclui. Sabemos que antes alguns negros ao serem libertos tinham como sonho de consumo comprar um "escravo novinho". É curta a distancia entre a boquinha aceita por todos como normal e a corrupçã endêmica. Existe um ethos encarnado no parasita de plantão e que é reafirmado pelo otário da vez – todos querem levar vantagem em tudo. Em tal sociedade é difícil germinar os ideais republicanos da liberdade, fraternidade e igualdade.

Sobre minha opção pela filosofia

Pastores , professores, políticos, patrões e empregados, pais e mães, todos são cúmplices dessa letargia e alienação que se abate sobre nosso povo que perdeu a capacidade de se indignar e dizer não. Um povo ao qual foi roubado não apenas o direito de falar e pensar, mas de sobreviver dignamente como pessoa humana. Concordo com o saudoso Betinho quando disse: "Nós nos acostumamos de forma perigosa a conviver com a pobreza e a miséria. Para conviver com isso, ou cada um assume uma cota de cinismo ou cria um estado de consciência, um estado de mudança ou indignação".

Quando li Nietzsche pela primeira vez, disse a mim mesmo – eis um homem que definitivamente escreve com carne e sangue, enfim, que se consume em cada um de seus escritos. Sob os golpes de sua filosofia a marteladas, procurei o caminho tortuoso da filosofia onde muitos se perderam...O próprio Nietzsche reconhecia que seus escritos era uma escola de suspeita, mais também uma escola de coragem e até mesmo de temeridade - Nietzsche ensina-nos o amor fati - uma vontade que quer com alegria, uma vontade trágica que afirma a vida na pura pluralidade do devir. A Vida vale por si mesma. A decadência de nossa época estaria justamente ali, onde se afirma a virtude, a felicidade, o bem, o Belo, a verdade, a justiça, a igualdade, a caridade, a piedade, etc. Nietzsche demonstra que por trás dos valores superiores da humanidade impera uma vontade de fraqueza e forças reativas. E para além dos escombros da moral, da religião e da metafísica, o filósofo anuncia que vê a chegada de um novo tempo, de um novo homem, de uma nova maneira de sentir, pensar e querer... Da ansiedade da espera pelo além-homem, Nietzsche cria para si os Espíritos Livres . Falsidade, delírio de uma mente já doentia. Nietzsche responderia - "De quanta falsidade ainda preciso para me dar o luxo de minha veracidade..? Falando de si mesmo em Ecce Homo, obra em que, para muitos, os sinais da loucura já se manifestam, Nietzsche profetiza - Na antevisão de que dentro em breve terei de me apresentar à humanidade como a mais difícil exigência que jamais lhe foi feita, parece-me indispensável dizer quem sou. No fundo se poderia sabê-lo, pois não me deixei sem testemunho. A desproporção, porém, entre a grandeza de minha tarefa e a pequenez de meus contemporâneos, alcançou sua expressão no fato de que nem ouviram, nem sequer me viram... Ouçam, pois, eu sou tal e tal. Não me confundam, sobretudo....

A última coisa que me proporia seria melhorar a humanidade. Por mim, não são erigidos novos ídolos; Derrubar ídolos, isto sim, já faz parte de meu ofício. Privou-se a realidade de seu valor, de seu sentido, de sua veracidade, no mesmo grau em que se mentiu um mundo ideal... o mundo-verdade que se opõe ao mundo aparente... A Mentira do ideal foi até agora a maldição sobre a realidade, com ela a humanidade mesma se tornou, até em seus mais profundos instintos, mentirosa e falsa... Quem sabe respirar o ar de meus escritos sabe que é um ar de altitude, um ar forte. É preciso ser feito para ele... O gelo está perto, a solidão é descomunal - mas com que traquilidade estão postas todas as coisas à luz! Com que liberdade se respira! quando se sente abaixo de si!.. Filosofia, tal como até agora a entendi e vivi, é a vida voluntária em gelo e altas montanhas - a procura por tudo que é estrangeiro e problemático na existência, por tudo aquilo que até agora foi exilado pela moral... Aqui não fala nenhum profeta, nenhum daqueles arrepiantes híbridos de doença e vontade de potência que são chamados fundadores de religiões. É preciso mais que tudo saber ouvir corretamente o tom que vem dessa boca... As palavras mais quietas são as que trazem a tempestade, Aqui não fala nenhum fanático, aqui não se prega, aqui não se exige crença: de uma infinita plenitude de luz e profundeza de felicidade cai gota por gota, palavra por palavra - uma delicada lentidão é a cadência desse falar. Algo assim só chega aos mais seletos...Nietzsche, o grande sedutor? O Sábio? o Mestre? o Guru? o Santo? o Louco? Ouçamos o nos aconselha Zaratrustra:

"Sozinho vou agora, meus discípulos! Também vós ide embora, e sozinhos! Assim quero eu... Afastai-vos de mim, defendei-vos de mim! E, melhor ainda, envergonhai-vos de mim ! Talvez vos tenha enganado.Paga-se se mal a um mestre, quando se continua sempre a ser apenas o aluno. Vois me venerais, mas, e se um dia sua veneração desmoronar? Guardai-vos para que não vos esmague uma estátua...Sois meus crentes, mas que importa toda crença.!

Ainda não vos havíeis procurado, então me encontrastes.Assim fazem todos os crentes. Agora vos mando me perderdes e vos encontrardes, e somente quando me tiverdes todos renegado, eu retornarei a vós...Com outros olhos eu procurarei os meus perdidos....

Com um outro amor, eu vos amarei então...Quem tem ouvidos, que ouça... [Nietzsche, Assim Falou Zaratustra.]